segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Reflexão sobre os rankings das escolas...

Desde 2006 que todos os anos escrevo um artigo a reflectir sobre os rankings das escolas. Faço-o porque, nos anos em que lecciono a turmas do 11º ano que vão a exame, tenho curiosidade por saber a "posição" da escola aos níveis distrital e nacional, nomeadamente ao nível da disciplina de Geografia. É normal que tenha curiosidade, sobretudo porque tenho uma opinião diferente daquela que muitas vezes é veiculada pelos órgãos de comunicação social cada vez que os rankings são publicados. É claro que concordo na ideia que o factor determinante que explica o melhor ou pior resultado das escolas no ranking tem que ver com o tipo de alunos que cada escola tem, nomeadamente ao nível do estatuto sócio-económico dos pais dos alunos, pelo que é normal que os colégios dos "meninos bem" estejam melhor classificados do que as escolas localizadas no interior profundo do nosso país. Até aqui, nada de novo...
A discordância surge quando comparamos escolas situados em contextos sócio-económico semelhantes, mas com resultados muito díspares. É que, a este nível, há quem proponha uma série de factores justificativos para os melhores resultados de umas escolas em relação a outras. Há quem defenda que a estabilidade do corpo docente e a idade mais avançada dos professores (ou seja, a maior experiência profissional) é que estão na origem dos bons resultados de umas escolas, em relação a outras que, supostamente por terem um corpo docente mais novo ou menos estável lhes confere maiores dificuldades ao nível dos resultados dos exames dos seus alunos. Também há quem coloque o âmago da questão no facto de algumas escolas levarem todos os alunos a exame, enquanto que outras sobem a fasquia no primeiro período de aulas, por forma a incentivarem os alunos mais fracos a desistirem do ensino regular e a enveredarem pelo ensino profissional. E até há escolas que, simplesmente, se podem dar ao luxo de escolherem os alunos que têm por se localizarem em territórios onde existem duas ou mais escolas, situação que ocorre sobretudo nas cidades.
Mas, neste artigo prefiro focar a minha atenção na influência que a estabilidade e a antiguidade do corpo docente pode ou não ter na obtenção de melhores resultados por parte dos alunos. Isto porque o jornal Público deu a entender numa reportagem publicada no suplemento dos rankings deste ano que a estabilidade do corpo docente (conseguida ao fim de muitos anos de serviço na mesma escola) é factor determinante para uma melhor classificação das escolas. Afirmava o Público que a estabilidade docente dos colégios privados determina a sua melhor posição nos rankings, face à menor estabilidade que existe na maior parte das escolas públicas. Como se a razão fosse essa!!! Discordo da ideia feita de que a uma maior experiência profissional corresponde um melhor processo de ensino-aprendizagem que pode facilitar os alunos à obtenção de melhores resultados nos exames nacionais. Tenho esta opinião baseada no facto de nos últimos dezassete anos já ter leccionado em várias escolas do distrito de Viseu, cada uma com as suas características próprias (tanto a nível social, como económico) e ter constatado que não existe uma ligação direta entre o facto de um professor já ser da "casa" e, assim, ter maior facilidade em "conseguir" que os seus alunos atinjam melhores resultados nos exames. Como diz o outro: "há de tudo". Já estive em escolas onde os resultados nos exames foram muito positivos com professores que não são da "casa", tal como já leccionei em escolas onde à "prata da casa" não corresponderam melhores resultados nos exames.  
É óbvio que não vou aqui falar de escolas, até porque cada escola é uma realidade própria e apenas posso falar das escolas por onde tenho passado e, sobretudo, em relação à disciplina que lecciono. É é claro que em relação à disciplina de Geografia falamos de alunos das Humanidades, onde, como se sabe, muitas escolas fazem "das tripas coração" para conseguirem ter o número mínimo de alunos para abrirem uma turma que seja, enquanto que nos cursos de Ciências e Tecnologias a situação é diferente. Também por isso é que muitas escolas de pequenas vilas do interior não conseguem obter resultados positivos no exame de Geografia (e às outras disciplinas das Humanidades) porque muitos dos alunos que têm nas Humanidades seriam, noutras escolas, canalizados para os cursos profissionais. E, claro, não esqueçamos as muitas transferências de alunos que no final do primeiro período de aulas ocorrem em muitas escolas de alunos dos Científicos para as Humanidades...
Continuo a pensar que o principal factor responsável pelos bons, medianos ou maus resultados dos alunos nos exames tem que ver com a origem sócio-económica dos alunos. Depois seguem-se as estratégias que cada escola adopta com vista a melhorar os resultados nos exames, desde a escolha dos professores que leccionam às turmas com exames até aos apoios, coadjuvâncias e assessorias concedidas às turmas. E quando me refiro à escolha dos professores não me refiro à escolha dos mais experientes e/ou com mais anos de serviço. É que continuo a pensar que o profissionalismo de cada docente não tem de ser, de forma obrigatória, diretamente proporcional à idade que se tem. De facto, ou se é competente ou não se é, independentemente da idade que se tenha ou do facto de se estar a leccionar numa determinada escola há muitos ou poucos anos. Portanto, propagandear a ideia, como fez o Público, que a estabilidade do corpo docente, assente em muitos anos de serviço na mesma escola, é condição fundamental para que os resultados dos alunos nos exames sejam melhores é, quanto a mim, confundir a opinião pública e agarrar-mo-nos a uma falsa questão. 
Estive a reler o que escrevi sobre este assunto desde o ano 2006 e cada vez mais convenço dos benefícios que a publicação dos rankings pode trazer para cada uma das escolas, desde que cada uma reflicta sobre as causas do seu (in)sucesso e das medidas a aplicar para a melhoria dos resultados. E continuo a pensar que, tal como escrevi em 2006, "mais do que avaliar escolas, os exames devem servir para avaliar alunos, também podendo servir para avaliar a prestação e o desempenho dos professores". E já em 2007 falava sobre a importância de se escolherem correctamente os professores que leccionam às turmas que têm exames finais. Claro que há também que colocar o enfoque no empenho e determinação dos alunos, como fiz naquilo que escrevi em 2008. Curiosamente (ou não), em 2012, também o Expresso já vinha com a ideia que a antiguidade docente é factor decisivo nos resultados dos exames. Já aí contrariei essa ideia. Mais importante do que a antiguidade docente é o profissionalismo docente e, este nada tem que ver com a idade das pessoas. Como escrevi no ano passado, foi possível que numa escola de uma vila pacata os resultados no exame de Geografia fossem muito positivos com "um grupo de docentes relativamente jovem, com uma média de idades a rondar os 40 anos de idade, e que funcionou sempre bem no sentido de fomentar nos alunos o gosto pela Geografia". 
Concluindo, há uma multiplicidade de factores que determinam o êxito (ou fracasso) dos resultados dos exames, mas há uns muito mais importantes (como a origem social dos alunos e o profissionalismo docente) do que outros, sendo que, quanto a mim, a antiguidade docente é dos factores menos decisivos...


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

E que tal sabermos as reais taxas de empregabilidade dos cursos do ensino profissional?

Hoje, de manhã, quando passava a pé pelo centro histórico de Viseu encontrei-me com duas antigas alunas às quais leccionei Geografia há três anos atrás. Eram alunas de uma turma do ensino profissional do curso de Turismo Ambiental e Rural. Lembro-me que era uma turma que havia iniciado o curso com cerca de 24 alunos e que quando terminou, passados três anos, não teria mais de 14 alunos. A turma era bastante heterogénea: as raparigas trabalhavam bem e esforçavam-se por ter bons resultados, enquanto que os rapazes não estavam para se "chatear" muito com o curso e estavam ali porque, como diziam "a isso somos obrigados". Ao longo dos três anos do curso, cerca de 10 alunos haviam desistido de o frequentar...
Quando o curso chegou ao fim, depois dos alunos terem tido uns meses de estágio profissional, deixei de ter notícias da turma, até porque, entretanto, mudei de escola. Pois bem, ao encontrar-me com as estas duas antigas alunas fiquei a saber um pouco mais sobre o que aconteceu com os alunos da turma. Perguntei-lhes se tinham entrado para a Universidade ou se já trabalhavam. "Nem uma coisa, nem outra", responderam. "Estamos desempregadas desde que o estágio terminou". Estavam muito desiludidas com a situação e disseram-me que apenas duas colegas estavam a trabalhar na área do turismo, uma num hotel da região e outra na autarquia local. A maioria dos rapazes emigrou para a França e Suiça e as restantes raparigas estavam no desemprego, à excepção de uma aluna (a que tinha melhores resultados e a única que desde o início me pareceu que estava no curso de turismo por vocação, até porque a mãe tinha um empreendimento de turismo rural) que havia ido estudar Turismo para o ensino superior.
Seria importante que cada escola tivesse o cuidado de ter uma equipa de docentes que se preocupasse em saber por onde andam os alunos que terminam os cursos profissionais. Não basta arranjar-lhes os estágios profissionais, dar-lhes o certificado de conclusão e depois fechar a página. Lembro-me de há uns anos atrás ter feito, a pedido da direção da escola, um trabalho de monitorização do percurso pós-escolar dos alunos. Foi um trabalho simples: pegar nos contactos telefónicos dos alunos ou dos seus encarregados de educação e questioná-los, uma ou duas vezes por ano, sobre a situação profissional dos antigos alunos dos cursos profissionais. O mesmo poderia ser feito para os alunos do curso regular. Seria crucial e importante que as escolas (e o MEC) conhecessem a taxa de empregabilidade (assim como a qualidade dessa empregabilidade) dos alunos que terminam os cursos profissionais. É uma tarefa simples, mas vital para se perceber até que ponto é que este tipo de ensino funciona ou não...
Fiquei com pena das duas miúdas. Por sinal, uma delas até era das mais aplicadas da turma, sempre muito preocupada e esforçada nas tarefas desenvolvidas dentro e fora da sala de aula. Concluiu com sucesso todos os módulos e estagiou num hotel da região. Mas, como a própria me disse na curta conversa que tivemos: "os hotéis só querem estagiários, porque assim não têm de pagar muito". E é por esta e outras razões que o desemprego dos jovens atinge valores tão elevados, obrigando inclusive muito destes jovens a emigrarem. É que dá que pensar: de 24 alunos que iniciaram este curso profissional, apenas 14 o terminaram e, passados mais de dois anos, apenas 2 alunos conseguiram emprego na área do curso, sendo que quase metade emigrou. Pergunto: não será importante que se conheça a realidade do ensino profissional em Portugal?

domingo, 9 de novembro de 2014

Atenção à notícia do DN... Realismo ou sensacionalismo?

O DN do último sábado trouxe como chamada de capa a pretensão de Nuno Crato em municipalizar a educação, delegando nas autarquias a gestão dos recursos administrativos e do pessoal. Afirma o DN que, a concretizarem-se os objectivos do governo, as autarquias poderão receber 13600 euros por cada professor que dispensarem, tendo em conta as necessidades "reais" de cada concelho relativamente ao número de professores efectivos nesse concelho. 
A notícia parece-me demasiado "sensacionalista", a tentar procurar a venda rápida de jornais. Título de capa "chamativo", numa lógica de mercantilização da classe docente. Não comprei o jornal. Achei o título estranho e pouco plausível de evidenciar algo real. Como se fosse possível dispensar professores em troca de uns quantos milhares de euros! Até parece que não existem leis em Portugal e que vivemos numa selva. Aliás, o despedimento é algo que nem existe na Função Pública. O que de mais próximo temos é a chamada "requalificação", também conhecida como "mobilidade especial" e que, mesmo assim, implica a existência de uma série de condições para se poder concretizar.
Claro que não ignoro que Nuno Crato e este governo têm em vista a diminuição do número de professores. Somos mais de 100 mil e, a verdade, é que somos mais vistos como uma despesa no Orçamento de Estado do que como agentes essenciais no desenvolvimento humano do país. O número de professores contratados diminuiu para menos de metade em relação há 5 anos atrás. Por outro lado, as rescisões levaram à saída de uns quantos milhares de professores. E as reformas antecipadas só não são em maior número por condicionalismos vários. Mesmo assim e com base na redução da natalidade e no aumento da emigração e do êxodo rural, o MEC espera continuar com a diminuição do número de professores existentes no sistema público de educação.
Mas, daí a pensar que seja possível que exista uma espécie de troca em que pela saída de um professor uma autarquia seja ressarcida em cerca de 14 mil euros custa a acreditar. Não estamos na Venezuela ou na Coreia do Norte!!! A municipalização da Educação até poderá ser uma pretensão do MEC e das próprias autarquias, assim como de muitos diretores de escolas, mas ainda temos leis e uma Constituição que enunciam deveres, mas também direitos a proteger.   
Entretanto, António Costa, o candidato do PS a Primeiro-Ministro continua mudo no que toca a enunciar aquilo que pensar fazer (ou não) na área da Educação. Recorde-se que este governo apenas continuou a aprofundar aquilo que vinha do seu antecessor. É que foi o PS que começou com a ideia de conceder maior autonomia às escolas numa lógica de municipalização das mesmas. 
A ver vamos os próximos capítulos desta autêntica novela...

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Reduzir o número de professores? Ainda mais? A OCDE bem que podia fazer uma análise mais apurada dos números...

A OCDE veio a Portugal aconselhar o Governo a reduzir o número de professores e de polícias. Não vou aqui argumentar a favor ou contra a redução do número de polícias; apenas digo que me parece que os polícias deviam andar mais na rua e estarem menos afectos a serviços burocráticos de secretaria. Mas, com este artigo interessa-me sobretudo demonstrar que a argumentação utilizada pela OCDE para defender a redução do número de docentes incorre num erro que deveria ser rapidamente corrigido. E o erro a que me refiro diz respeito ao facto desta análise (feita de forma tão simplista pela OCDE) se basear apenas e tão só na operação aritmética de dividir o número de alunos matriculados no ensino público (cerca de 1 milhão e trezentos mil alunos) pelo número de professores afectos ao MEC (cerca de 130 mil). Com base nesta simples conta de dividir é claro que o resultado será uma média aproximada de 10 alunos por professor. E é com esta argumentação que a OCDE vem dizer que (ainda) há professores a mais!!!
E porque razão não faz a OCDE uma análise mais apurada dos números? Porque não pega no número de professores que, efectivamente, lecciona? É que, com vista a uma análise séria, a estes 130 mil professores que estão no sistema deveriam ser "retirados" todos os professores que estão em cargos de direcção e que não leccionam, para além de todos aqueles que estão destacados noutros serviços e organismos dos Estado e que, efectivamente, não dão aulas. E, claro, aqueles que estão de baixa prolongada? E os que têm redução da sua componente lectiva e que, portanto, têm menos alunos a seu cargo? E os que estão nas escolas com horário incompleto? E, por aí fora...
É que apurar o rácio alunos/professor apenas com base no número total de alunos e de professores presentes no sistema público de ensino é demasiado simplista quando queremos comparar a realidade portuguesa com o que ocorre nos outros países da OCDE. 
Claro que não sou daqueles que ignora que durante muitos anos tivemos demasiados professores nas nossas escolas a terem poucas turmas e que pouco ou nada faziam na escola nos tempos que diziam respeito à redução da sua componente lectiva pela questão da idade. E também não ignoro que nos tempos em que chegámos a ter mais de 160 mil professores na Escola Pública havia um claro desperdício dos recursos humanos existentes nas escolas. A redução do número de professores que havia a fazer já foi feita (possivelmente até em demasia) e o aumento do número de horas lectivas e não lectivas (passadas efectivamente na escola) tem sido uma realidade nos últimos anos. Agora, ter que levar com estes estudos da OCDE a dizer que ainda temos que reduzir o número de professores, com base na simples relação do número de alunos e de professores existentes no sistema é um disparate. Basta analisar as listas enormes de mobilidade por destacamento nos mais diversos serviços do Estado que a DGRHE publica todos os anos para perceber que há milhares de professores que, efectivamente, pertencem às escolas, mas não estão nas escolas...
E porque não questiona a OCDE o MEC sobre o número de professores que, efectivamente, estão nas escolas a dar aulas? O MEC tem esses números e, certamente que, com base nesses dados reais e concretos, o rácio alunos/professores seria muito superior ao número que a OCDE e o MEC apresentam. Não lhes interessa, não é???
Outra questão importante que merecia reflexão tem que ver com a dispersão curricular. Uma redução do número de disciplinas por ano de escolaridade (sobretudo no 3º ciclo) só teria benefícios para professores e alunos. Cada professor deixaria de ter tantas turmas a seu cargo (basta pensar que com disciplinas com um bloco de aulas por semana, cada professor pode chegar a ter nove turmas a seu cargo e, portanto, mais de 200 alunos) e os alunos passariam a ter algumas disciplinas com maior regularidade semanal, acompanhando melhor a matéria leccionada e, certamente, que os resultados seriam melhores. 
A redução do número de professores está feita. Os números provam-no. E atenção que apenas aqui apresento os dados relativos ao ano lectivo 2012/2013, pois no presente ano lectivo, com a redução do número de colegas contratados e a aplicação das rescisões amigáveis, o número de professores afectos ao ensino público deve estar próximo dos 120 mil!!! Ou seja, uma redução de mais de 40 mil professores em apenas 10 anos... É verdade que há 10 anos atrás tínhamos professores a mais ou, pelo menos, estavam subaproveitados. A redução no número de docentes foi feita. E não há dúvidas que os recursos humanos têm sido melhor aproveitados (instituíram-se os apoios, as tutorias, as assessorias, etc.). Agora, há que deixar de ver a Educação numa lógica de procura de poupanças dos recursos financeiros (que correspondem, grosso modo, à redução dos salários dos professores) e devolver à profissão docente aquilo que os últimos governos lhe retiraram: a dignidade...
Para quem quiser ficar a saber um pouco mais sobre estes números pode fazer uma consulta aqui, aqui e aqui.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Será que a descentralização do sistema de colocação de professores resolve mesmo os problemas? Não me parece e digo-o porquê...

Durante um mês inteiro, enquanto o país assistia boquiaberto à catadupa diária de notícias sobre o caos ocorrido na Educação, com centenas de escolas sem muitos dos professores necessários, com milhares de alunos com furos nos seus horários e com a confusão total da (des)colocação de professores, não ouvimos uma única palavra do Presidente da República sobre o assunto que mais se debateu (e continua a debater) no país. Ora, na única vez que Cavaco Silva fala sobre o assunto, é levantada a ponta do véu da solução que muitos (governantes, jornalistas, comentadores, etc.) avançavam já há muito tempo para a resolução do problema: a descentralização da colocação de professores. 
Mesmo antes de ser Ministro da Educação, Nuno Crato já defendia o fim do concurso nacional de colocação de professores. Daí que tenha aprofundado a autonomia das escolas (que são já 1/3 do total das escolas públicas) iniciada com Maria de Lurdes Rodrigues. As autarquias, com a sua inclusão nos conselhos gerais das escolas não renegam a possibilidade que lhes sejam concedidas maiores competências ao nível do recrutamento do pessoal docente e não docente. Também as associações de pais e encarregados de educação vieram elogiar as palavras do Presidente da República. A maioria dos comentadores políticos e jornalistas também defende que sejam as escolas a recrutarem os seus professores. E, claro, não há nenhum diretor (pelo menos que eu saiba) que não prefira ter uma palavra a dizer na hora de seleccionar o seu corpo docente. Ou sejaapenas os sindicatos e os professores estão contra a ideia de que se acabe com o sistema nacional de colocação de professores baseado na graduação profissional. Todos sabemos os motivos...
Assistindo aos programas televisivos onde se tem debatido este assunto (Opinião Pública da SIC, Antena Aberta da RTP e muitos outros) dá para perceber que quase toda a gente, com exceção dos professores, vê a descentralização do sistema de colocação de professores como o caminho a seguir. Cavaco Silva apenas falou em "descentralização", sem ter sido devidamente assertivo em relação ao que verdadeiramente defende. Nuno Crato, sentindo-se protegido por Cavaco, veio logo corroborar da opinião do PR, defendendo maior autonomia para as escolas nesta matéria. E, claro, as escolas e os seus diretores agradecem. É que convém que nos coloquemos na pele de um diretor de uma qualquer escola. Certamente que iríamos preferir que fossemos nós próprios a escolher os professores a contratar. Contudo, também sabemos que qualquer processo desse género, a ser feito de forma séria, rigorosa e imparcial, é tão ou mais burocrático que qualquer sistema nacional de colocação de professores. Por outro lado, parece-me que o sistema nacional de colocação de professores, baseado na graduação profissional e imune a pressões externas, é o mais justo e rápido de ser efectivado. A descentralização faz-me recordar os antigos "miniconcursos", mas agora numa lógica de centenas de miniconcursos espalhados por todo o país, com milhares de currículos entregues em cada escola à espera de análise, ponderação e decisão. Burocracia excessiva e desnecessária...
Quanto a mim, a solução é muito simples e não será novidade para quem dá aulas. Esta passa, sobretudo, por antecipar etapas no processo de colocação de professores. Em Fevereiro cada escola deve fazer uma perspectiva do número de professores que necessitará no ano seguinte para cada grupo de recrutamento, informando o MEC das suas necessidades. Depois do MEC lançar as vagas e dos professores concorrerem, os resultados das colocações devem sair em Abril. No mês de Maio devem ser feitos os reajustes (mobilidade interna) e em Junho, no final do ano lectivo, todos os professores podem saber em que escola vão leccionar no ano seguinte. Em Setembro, com as turmas definidas, caso haja grupos disciplinares com horas lectivas a menos para os professores colocados, aproveita-se esse desajustamento em prol dos alunos, com a constituição de pares pedagógicos e apoios. O importante mesmo seria que cada escola tivesse no primeiro dia de Setembro o seu corpo docente devidamente estabilizado, sem falta de professores. E, caso faltasse algum docente (por baixa médica, maternidade ou outra razão) recorria-se, de forma célere, à bolsa nacional de professores contratados, tendo como critério único a graduação.
Claro que há quem venha dizer que isso impossibilita que os diretores possam escolher os seus professores, estando sujeitos a que lhes venha "calhar" professores incompetentes (que também os há, como em qualquer outra profissão) nas escolas que dirigem. Ora, a avaliação docente deve servir precisamente para diferenciar aqueles que trabalham daqueles que fazem que trabalham. E deve ser na esfera da avaliação docente (séria, rigorosa e imparcial) que as rédeas devem ser tomadas a fim de melhorar o serviço docente e colocar os "professores baldas" na ordem. Sim, porque quero crer que esses, os baldas, são uma exceção e facilmente "apanhados", pois a maioria dos professores que estão nas escolas preocupam-se em dar o melhor de si. Até porque os diretores das escolas sabem muito bem quem são os professores que "dão o litro" e os que fazem de conta (e às vezes nem isso!) que dão...

domingo, 12 de outubro de 2014

Um mês passou. E será que Crato aguentará outro mês no cargo? Custa a acreditar...

Há um mês atrás, Passos Coelho afirmava em Sernancelhe, na abertura do ano escolar, que a colocação de professores havia corrido melhor que no ano anterior e que tudo estava a correr dentro da normalidade. É claro que Passos Coelho, a leste do burocrático e complicado processo de colocação de professores, disse o que disse porque Nuno Crato certamente lhe havia dado garantias dessa normalidade. Ora, logo no próprio dia pareceu claro a todos que estaríamos perante o pior início de ano escolar desde há muitos anos e, a verdade é que, o que se tem lido e visto nos órgãos de comunicação social neste último mês em termos de notícias sobre Educação deveria fazer corar de vergonha quem tutela a pasta da Educação.
O Expresso notícia agora aquilo que muitos já suspeitavam: Nuno Crato colocou o lugar à disposição, mas Passos Coelho não aceitou. Não apenas devido à discussão do Orçamento de Estado de 2015, mas também por óbvios interesses político-partidários, numa lógica de estratégia eleitoral. Passos Coelho não quis dar parte fraca e fazer aquilo que a oposição exigia e que os comentadores políticos adivinhavam. 
Crato colocou o seu lugar à disposição. No entanto, o que deveria ter feito, caso tivesse (ainda) algum respeito pelos professores, alunos e pais afectados por tanta trapalhada e incompetência, seria, pura e simplesmente, sair pelo seu próprio pé. Demitir-se. Avisava Passos Coelho da sua decisão (irrevogável!!!) e dava-lhe algum tempo  para que arranjasse alguém que aceitasse a pasta da Educação. Pretendentes a serem Ministros é coisa que não falta neste país. E fazer pior que Crato seria difícil.
Resta saber até quando é que Nuno Crato se manterá no cargo. Custa acreditar que tenha coragem (ou deveria escrever "falta de vergonha"?) para se manter como Ministro da Educação até às próximas eleições legislativas. Seria único. Nem Miguel Relvas desceu tão baixo!!!
Passos Coelho tem agora como prioridade as próximas legislativas. Sabe que o próximo concurso de professores será fulcral para que o score da coligação não seja um desastre. Por isso (des)espera pela resolução dos problemas na Educação e na Justiça. Será que Passos está à espera do tempo certo para a remodelação (inesperada), por forma a substituir Crato e Teixeira da Cruz? Penso que sim. Custa-me acreditar que os consiga manter por mais um ano. Por isso, aposto que em Novembro (ou, o mais tardar, em Dezembro) teremos algumas caras novas no Governo. Claro que isso não limpa a face do Governo. Bem pelo contrário. Crato ficará marcado pela incompetência na abertura deste ano escolar e por ter implodido, não o MEC, mas sim o processo de colocação de professores e ainda por ter conseguido ultrapassar em arrogância e incompetência a "terrível" Maria de Lurdes Rodrigues.
Entretanto, vamos ver até quando é que continuamos a assistir a este contínuo e diário desenrolar de notícias sobre os erros e as confusões na colocação de professores a abrirem os telejornais e as capas de jornais. Uma coisa é certa: há que elogiar todos os jornalistas que não se têm cansado de mostrar à opinião pública até onde foi a incompetência daqueles que estão à frente do MEC. Só ainda não compreendi porque é que o Prós e Contras da RTP1 ainda não debateu o assunto da colocação de professores...
E lá vamos nós na quinta semana de aulas com milhares de alunos por esse país fora ainda com falta de professores a muitas das disciplinas. Na escola onde dou aulas faltavam ainda, depois de um mês de aulas, cerca de 10 professores. Tenho nove turmas e em todas elas há, pelo menos, um professor em falta. Nalgumas chegam a faltar três (de História, de Físico-Química e de EMRC). Custa a acreditar que tamanha trapalhada pudesse ser possível de ocorrer em pleno século XXI!

domingo, 5 de outubro de 2014

"Quebrou-se-lhes a espinha". Completamente...

Seis anos passaram e as palavras crise e austeridade tomaram conta do vocabulário de todos os dias, o governo mudou, o Ministro da Educação é outro e, no entanto, os professores continuam a ser tratados como se de uns animais domesticáveis se tratassem. 
Há um mês atrás, o Ministro Nuno Crato afirmava que o ano escolar iria iniciar-se sem sobressaltos e com toda a normalidade possível. Passado um mês, os portugueses estão "boquiabertos" com as notícias sobre Educação que todos os dias são emitidas nas televisões. Mau demais. Mas, a tutela continua na mesma como se nada de anormal tivesse ocorrido. 
Relembro as palavras de há seis anos atrás:
"Quebrou-se-lhes (aos professores) a espinha, juntando ao desespero anterior um desespero maior. O ambiente nas escolas é agora de ansiedade, com a corrida ao cumprimento das centenas de regulamentações que desabam todos os dias do Ministério para os professores lerem, interpretarem e aplicarem. Uma burocracia inimaginável, que devora as horas dos professores, em aflição constante para a conciliar com uma vida privada cada vez mais residual e mesmo com a preparação das lições, em desnorte com as novas normas (tal professor de filosofia a dar aulas de "baby sitting" em cursos profissionalizantes) - tudo isto sob a ameaça da despromoção e do resultado da avaliação que pode terminar no desemprego".
E, depois de tamanha irresponsabilidade na abertura deste ano escolar, com prejuízos graves na vida de milhares de famílias, de professores e de alunos, e de mais uma machadada na imagem da classe docente, será que Nuno Crato vai continuar impávido e sereno até ao final do seu mandato como se nada de anormal e grave tivesse ocorrido? Custa a acreditar...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

As turmas do vocacional...

Mais um ano lectivo e mais uma turma do ensino não regular. E vão sete anos consecutivos com turmas do ensino profissionalizante. Depois de turmas do ensino tecnológico, de profissionais, CEF`s e PCA`s, desta vez foi a vez do vocacional. Muda o nome, mas vai dar tudo ao mesmo: turmas para as quais são "direccionados" sobretudo alunos difíceis, com dificuldades de aprendizagem, com duas ou mais retenções e, muitas vezes, com problemas de comportamento, enfim, aqueles que são apelidados como os alunos que chateiam e dão mais problemas. Claro que há excepções e até podemos ver nestas turmas alunos interessados e que têm vocação para a área que escolheram. Mas, são mesmo excepções e, muitas vezes, estes alunos até têm de fazer um esforço acrescido para não se deixarem "estragar" pelos seus colegas do costume, aqueles a quem a escola nada diz em relação ao estudo e trabalho...
Depois de nos últimos seis anos ter tido diversas turmas do ensino não regular, posso afirmar que apenas uma dessas turmas era composta maioritariamente por alunos que, efectivamente, escolheram o ensino profissionalizante por vocação e não por obrigação. Era uma turma do curso profissional de Turismo Ambiental e Rural e os alunos trabalhavam como se tratasse de uma (boa) turma do ensino regular. Tanto na sala de aula, como nas saídas de campo, o esforço e dedicação eram ponto de ordem. Mas, como disse, foi uma turma de excepção. A maioria das turmas do ensino não regular são compostas por alunos que pouco se empenham, onde é evidente a falta de hábitos de trabalho e que, muitas vezes, apenas estão na escola porque a isso são obrigados. Não estudam e pouco trabalham e, muitas vezes, constituem aqueles que, no futuro, serão os indivíduos mais problemáticos da sociedade. Alguns deles serão autênticos delinquentes...
Ora, os professores que têm de dar aulas a estas turmas correm sempre o risco de terem em mãos os piores alunos da escola, aqueles que apresentam um maior número de retenções, um maior historial de problemas disciplinares, sinalizações junto da CPCJ, problemas familiares, enfim, um autêntico barril de pólvora pronto a explodir. Estes professores deveriam ter, na minha opinião, uma espécie de benesse por terem de enfrentar estas turmas tão difíceis. Essa benesse poderia equiparar-se a uma redução da componente lectiva, dado o desgaste que estas turmas provocam nos docentes.
Tenho colegas meus que, com 20, 25, 30 e até mais anos de serviço nunca leccionaram a este tipo de turmas. Colegas que nunca saíram do ensino regular. Que não fazem a mínima ideia do que é ter turmas do ensino profissionalizante. E depois até afirmam que a experiência lhes concede a capacidade para leccionarem que os seus colegas mais novos não possuem. Mas, curiosamente ou não, essa tão propalada experiência parece que os não torna habilitados a leccionarem às turmas difíceis do ensino não regular. Aliás, quem já deu aulas aos profissionais e vocacionais fica sempre perplexo quando vê aparecerem colegas da chamada "velha guarda" que nunca leccionaram a estas turmas, mas que gostam de dar palpites sobre a forma correcta de "enfrentar" estes alunos. Porque será que algumas escolas não distribuem o serviço lectivo de forma mais equitativa por todos os professores? Porque será que alguns colegas são sempre "aliviados" destas turmas? Porque será que são, muitas vezes, os colegas contratados e mais novos a terem de ficar com estas turmas? E porque será que não se alivia a componente lectiva dos docentes que têm de ficar com estas turmas?  Certamente que quem já teve este tipo de turmas me compreende perfeitamente...  

sábado, 20 de setembro de 2014

Notas de alunos manipuladas? Toda a gente sabe em que escolas e disciplinas. E porque é que nada acontece?

O CNE, presidido por David Justino, coloca, finalmente, o dedo na ferida. Há muitos anos que se sabe que, em muitas escolas deste país, se utiliza a estratégia de "inflacionar" as notas internas dos alunos, por forma a compensar os desastres ocorridos nos exames nacionais, a fim de que a média final permita que muitos desses alunos consigam entrar no ensino superior. 
Basta analisar as pautas e comparar as notas internas e os resultados nos exames nacionais para perceber que, muitas vezes, não há discrepâncias de resultados por mero acaso ou azar. Mas, o inverso também ocorre em muitas escolas, sobretudo privadas: alunos que vão a exame como externos, por redução forçada da sua nota interna, de forma a não deixarem mal vistas as suas escolas. Enfim, políticas escolares que, muitas vezes, são assumidas internamente por todos (ou quase todos), mas que, na prática, constituem um fenómeno de manipulação dos resultados escolares, favorecendo uns alunos e prejudicando outros. 
Em dezasseis anos de serviço, muitos dos quais, em escolas secundárias e com a disciplina de Geografia A do 11º ano a meu cargo (e, portanto, em ano sujeito a exame nacional), felizmente nunca fui "pressionado" por ninguém com vista a facilitar os alunos, com receio daquilo que pudessem fazer no exame nacional. Bem sei que o exame de Geografia A não é dos mais complicados e que, portanto, não se trata de uma disciplina onde haja grande receio de haver discrepâncias entre as notas internas e externas. Quem dá aulas ao secundário sabe que as disciplinas onde este tipo de manipulação das notas mais costuma ocorrer são, por exemplo, as de História (muitas vezes de forma flagrante), mas também as de Matemática, Física e Química ou Biologia.
Mas, se o CNE avança, no seu relatório, com o aviso (que não é novidade para quem lecciona), porque não vai mais além, limitando-se a remeter para a tutela a análise e resolução deste problema? Todos os anos são publicados os rankings das escolas, pelo que basta pegar nos últimos cinco rankings para ver que há escolas onde, sistematicamente, existem enormes discrepâncias entre as notas internas e os resultados externos. O que tem sido feito? A tutela tem fechado os olhos...
E, nas privadas, todos sabemos como funcionam muitas delas, por forma a conseguirem chegar aos primeiros lugares dos rankings nacionais. 
Bem sei que muitas das escolas onde as notas internas são inflacionadas se situam em regiões desfavorecidas e com graves problemas sociais, e que o argumento utilizado para a inflação das notas é a de que os exames não devem servir de "barreira" à conclusão dos estudos ou à entrada no ensino superior. Mas, também não nos esqueçamos que os exames nacionais valem 30% da nota final e que, portanto, não determinam assim tanto e de forma tão decisiva a conclusão dos estudos. Há mínimos que devem ser cumpridos, por forma a evitar termos na Universidade alunos medíocres que têm 5 valores num exame nacional, mas conseguem passar à disciplina porque levam 13 valores de nota interna... Tem de haver um mínimo de exigência!!!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Professor, esse caixeiro-viajante... Triste, muito triste...

Como toda a gente neste país já reparou, à excepção do ministro Nuno Crato, o início deste ano lectivo foi tudo menos normal. Houve atrasos e erros nos concursos, assistimos ao fecho de escolas novas e bem equipadas, voltou a haver falta de assistentes operacionais e de técnicos do ensino especial em muitas escolas, continuaram a haver alunos a terem aulas em contentores (alguns já há quatro anos consecutivos), enfim, mau demais para ser verdade num país que se diz desenvolvido e que deveria ter a Educação como uma das suas prioridades... 
Este ano, na escola onde estou a dar aulas, o caso que mais me surpreendeu foi o de uma colega efectiva, mãe de dois filhos menores, que ficou colocada a cerca de 2 horas de casa, por estradas secundárias, sinuosas e com clima severo no inverno (tendo mesmo que atravessar uma serra com mais de 1200 metros de altitude). Esta colega terá todos os dias que fazer 250 kms por estradas do norte do país, o que a obrigará a, caso não tenha boleias para fazer com outros colegas, a gastar uma boa parte do seu ordenado em deslocações para ir trabalhar. E, como este caso (ou até piores) há centenas ou milhares de situações de colegas nossos um pouco por todo o país.
Deixo aqui a reportagem, emitida pela SIC, que dá a conhecer a situação de um professor que, ao fim de mais de 10 anos de serviço, foi colocado a 350 kms de distância, longe da mulher e filhos, e que deveria servir, ao menos, para que a opinião pública menos informada mas, sobretudo, o senhor ministro tivessem um pouco mais de consideração e de respeito pela classe docente. É que, não tenhamos dúvidas, que alguns dos factores que mais contribuem para um bom desempenho docente são a motivação e a valorização. Ora, neste início de ano lectivo, o que mais vimos por parte da tutela em relação aos professores foi mesmo desrespeito, desprezo e desvalorização. Triste, muito triste... 

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